Quinta-Feira, 14 de Novembro de 2019

Semana passada escrevi uma coluna absolutamente despretensiosa sobre os tempos dos BBS e me surpreendi com o interesse por ela despertado. Tanto minha postagem usual no Facebook, que costumo fazer para divulgar as colunas, quanto os diversos compartilhamentos que mereceu por parte de leitores que houveram por bem divulga-las (aos quais agrade?o), deram origem a dezenas de coment?rios, um ?ndice seguro de interesse. Portanto, ao que parece e apesar de ter sido abordado quase superficialmente, o tema agradou.

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Pois bem, se assim ?, voltemos ao assunto. Melhor: apenas durante o tempo em que voc?s leem esta coluna, voltemos ao passado. Tomemos todos, os diletos leitores, egr?gias leitoras e eu, uma nave espa?o-temporal e viajemos no tempo at? o passado. Agrada-me pensar que para cabermos todos seria necess?ria uma nave do porte da Enterprise, da s?rie ?Viagem nas estrelas? com seus m?ltiplos deques, mas h? quem diga que bastaria uma Kombi. Seja como for, n?o importando o tamanho da nave, embarquemos todos. Assim os novos micreiros ter?o uma ideia de como era nossa vida na era do byte lascado e os n?o t?o novos matar?o as saudades e reviver?o algumas lembran?as, boas ou m?s, de um tempo quase heroico.

Os bravos que me sigam e vamos adiante.

Acabamos de desembarcar na segunda metade dos anos oitenta do s?culo passado. Computador pessoal ainda ? uma coisa relativamente nova. O IBM PC, a primeira m?quina ?de dezesseis bits?, foi lan?ada pela IBM h? poucos anos, em agosto de 1981, e fez tanto sucesso com seu processador 8088 que seus clones, m?quinas capazes de rodarem o mesmo sistema operacional e programas, se multiplicaram e invadiram o mercado.

O que, ali?s, n?o ? uma fa?anha t?o grande como parece, posto que o mercado ? pequeno: estima-se que no mundo h? hoje 200 milh?es de computadores pessoais (lembre-se: estamos na segunda metade da d?cada de 1980). Comparado com os mais de sete bilh?es de telefones espertos que existir?o no distante futuro de 2015, cada um deles com uma capacidade computacional imensamente maior que a dos computadores de que falamos, o n?mero parece rid?culo.

E como s?o os computadores de que falamos?

S?o m?quinas bastante simples. Frente aos do futuro, 2015 por exemplo, chegam a inspirar riso. ? verdade que ainda no lustro passado a IBM lan?ou o AT, m?quina bem mais poderosa que o velho PC, equipada com o 80286 e que, vejam voc?s, j? vem de f?brica com um disco r?gido que chamamos de ?Winchester? por raz?es jamais bem explicadas.

E mais: inda agora mesmo, em 1987, acabam de serem lan?ados os primeiros clones equipados com o novo ?chip? da Intel, o 386 (diz-se ?tr?s-oito-meia?), m?quinas poderos?ssimas e capazes, vejam voc?s, de uma coisa quase m?gica denominada ?multitarefa?, ou seja: podem rodar mais de um programa simultaneamente desde que tenham instalado um sistema operacional adequado.

Como o primeiro sistema operacional capaz de fazer isso de maneira minimamente decente ser? o Windows 3, a ser lan?ado daqui a alguns anos, em 1991 (e haver? quem diga que sequer ser? um sistema operacional mas um ?quebra-galho? para aproveitar as funcionalidades revolucion?rias do tr?s-oito-meia ? o que ali?s ser? verdade), o que fazemos hoje ? rodar o DOS mesmo, o sistema operacional de tela texto (ou seja, n?o gr?fica, que aceita apenas caracteres alfanum?ricos) desenvolvido por uma pequena empresa de Seattle, a Microsoft para o 8088/8086, por?m equipado com o Deskview, um programeto sensacional da QuarterDeck que mesmo rodando sobre o DOS permite que se rode mais de um programa simultaneamente. Um neg?cio quase m?gico.

GPC20150612_1Monitor de um antigo computador

Por?m o que as futuras gera??es do pr?ximo mil?nio mais estranhar?o ser? nossa tela. Suspeito que ao v?-la em algum museu daqui a alguns anos haver? quem tenha acessos de riso ou que n?o acreditar? que um dia se p?de trabalhar com uma trapizonga tosca como estas.

Nossos monitores s?o um neg?cio mais ou menos do tamanho de um forno de micro-onda

... s do futuro com um cinesc?pio em seu interior que exibe uma tela negra na qual s?o mostradas no m?ximo 25 linhas nas quais cabem apenas oitenta caracteres. S?o caracteres que brilham com a cor esverdeada do elemento f?sforo, e por isso mesmo essas telas s?o chamadas ?de f?sforo verde?. Algumas, mais sofisticadas, exibem uma cor ?mbar, mas s?o raras.

Os sistemas mais avan?ados possuem uma placa controladora de v?deo capaz de exibir gr?ficos com uma resolu??o de 200 x 320 pontos. As imagens ficam quase indecifr?veis (veja Figura 1), mas para gr?ficos comerciais, do tipo linha ou barra, s?o aceit?veis.

Alguns monitores obedecem ao padr?o CGA (?Color Graphics Adaptor?) o que os torna capazes n?o somente de exibir gr?ficos mas tamb?m, pasmem: em cores. Conseguem exibir at? dezesseis cores diferentes e os raros micreiros que t?m a oportunidade de ver um bicho desses ficam extasiados. Mas, no Brasil, ainda s?o raros.

Isso porque vivemos um tempo em que vige uma lei curiosa denominada ?reserva de mercado da inform?tica?. Eu a classifico como ?curiosa? porque, tanto quanto eu saiba, durante todo negro per?odo da ditadura militar foi a ?nica iniciativa governamental que teve o apoio da extrema esquerda. Ora, como seria de esperar, algo que recebe o apoio concomitante dos militares ?gorilas? da extrema direita e dos militantes fan?ticos da extrema esquerda s? pode ser a ess?ncia concentrada da estupidez.

E ?.

Criada supostamente para proteger a ind?stria de inform?tica nacional mas na verdade para enriquecer ainda mais alguns industriais apropinquados (desculpem, mas usam-se termos como estes nos tempos atuais; afinal, ainda n?o existem as redes sociais que nas pr?ximas d?cadas encolher?o o vocabul?rio caboclo at? meia d?zia de ?kkkks?) dos militares do governo, industriais estes que ficar?o ainda mais ricos ? custa do atraso cient?fico e acad?mico do pa?s fabricando sob licen?a m?quinas ultrapassadas nos pa?ses de origem e copiando seus sistemas operacionais.

A lei ? simples: pro?be a importa??o de qualquer bem de inform?tica. Neste contexto, ?qualquer? significa qualquer, mesmo. Ou seja, tudo, seja l? o que for. At? uma simples caixa de disquetes, se surpreendida na bagagem de um cidad?o honesto que entra no pa?s, ? imediatamente apreendida.

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Com isto se garante que, nas lojas de inform?tica, sejam vendidos apenas uns aparelhos razo?veis para uso em editora??o de textos e confec??o de planilha simples, m?quinas de oito bits fabricadas c? mesmo e que seus fabricantes denominam de ?computadores? mas que nos pa?ses civilizados ou n?o mais existem ou s?o encontradas apenas nas se??es de jogos das lojas especializadas.

Mas estamos no Brasil. Com ditadura ou n?o, Brasil ? Brasil e sempre se d? um jeitinho. E a lei da reserva do mercado da inform?tica ensejou a cria??o de uma atividade il?cita peculiar, aquilo que se conhece hoje como ?importabandista?: pessoas especializadas em trazer do exterior computadores e/ou seus componentes que eram vendidos a pre?os inicialmente escorchantes.

Felizmente hoje, com o aumento do n?mero de importabandistas que acabou equilibrando demanda e procura, um computador ?montado? (ou seja, constru?do a partir de pe?as adquiridas dos importabandistas) ? vendido a pre?os razo?veis ? o que, diga-se de passagem, fez com que vicejasse uma nova atividade profissional, a de ?montadores de micros?. E, o mais interessante: como h? gente de todo tipo dedicada ? atividade do importabando, a lei de inform?tica conseguiu produzir uma contradi??o em termos: o contrabandista honesto, ou seja, aquele que lhe vende um produto contrabandeado, mas de boa qualidade.

Como se v?, a lei da reserva de mercado de inform?tica gerou diversos resultados interessantes.

Menos o progresso da ind?stria de inform?tica nacional.

H? hoje uma jovem cronista, Cora Ronai, que assina a coluna ?Circuito Integrado? no Jornal do Brasil, que um dia, terminada a ditadura e extinta a vig?ncia da lei de Reserva do Mercado, cunhar? a frase magistral: ?Toda universidade brasileira deveria erigir, no centro de seu campus, uma est?tua em homenagem ao contrabandista desconhecido?. Pois foi ele que impediu que o atraso tecnol?gico brasileiro na ?rea de inform?tica fosse ainda maior do que ser? no in?cio do pr?ximo mil?nio.

Hoje (hoje mesmo; voltamos temporariamente a 2015 para fechar a coluna), vamos parar por aqui. Mesmo porque a NET, que deveria me prestar servi?os de internet, n?o presta. Deixou-me sem sinal, o que me fez editar toda esta coluna consultando apenas minha mem?ria, o que considero uma fa?anha, pois como sabem todos os que me leem h? muito tempo (ou seja, os passageiros daquela Kombi citada no in?cio), a dita mem?ria volta e meia me prega pe?as. At? para a figura tive que recorrer a meus guardados.

Mas na semana que vem prometo falar nos modems que eram realmente modems (modulavam e demodulavam) j? que estes que usamos hoje (em 2015) apenas recebem e processam um sinal digital. E descrever as aventuras e desventuras dos ?BBzeiros?, como cham?vamos naquela ?poca os colegas de BBS.

At? l?.

B. Piropo.



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