Recentemente, baseado em duas pesquisas do Grupo Gartner que me chamaram a atenção, publiquei aqui mesmo duas colunas sobre televisores inteligentes (“Smart TVs”). Na primeira, intitulada “As TVs Inteligentes dominarão o mercado” e publicada em 12 de dezembro do ano passado (quer dizer, há três semanas…), descrevi sucintamente as características dos aparelhos de TV conectados à Internet e passei a analisar uma pesquisa realizada pelo Grupo Gartner cuja conclusão principal foi o fato de que no próximo ano (2016; eu sei que é óbvio, mas como acabamos de mudar de ano, convém explicitar para evitar confusões) 85% dos aparelhos televisores serão do tipo “inteligente”. A coluna da semana seguinte, intitulada “A TV inteligente e os ‘selfies’ do futuro”, abordava uma segunda pesquisa do mesmo grupo Gartner prevendo que em 2017 os televisores inteligentes ganharão funções adicionais que farão com que eles deixem de ser um mero dispositivo dedicado ao entretenimento e passem a ser o centro de controle daquilo que o Grupo Gartner chama de “casa conectada”. E que, então, a troca de mensagens acompanhadas por vídeos em tempo real será tão comum como são hoje os autorretratos, os populares “selfies”.

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A partir de 2005 e durante sete anos mantive uma coluna semanal no Fórum PCs, um excelente sítio dedicado a tecnologia e informática. O contato frequente com seu editor, Paulo Couto, fez nascer uma sólida amizade da qual muito me orgulho. E desde então, apesar do contato pessoal ter se tornado escasso devido à mudança do amigo para outras plagas deixando o Rio de Janeiro, onde moro, mantemos uma frequente troca de correspondência (eletrônica, naturalmente) que, por sermos ambos viciados em tecnologia, volta e meia descamba para a discussão de assuntos técnicos. Pois, embora tenha deixado a editoria do Fórum PCs, que já não mais está no ar, para se envolver em outros projetos, Paulo se mantém escrupulosamente em dia com o que há de novo no setor de TI e de quando em vez trocamos opiniões sobre o assunto.

Pois bem, semana passada recebi uma mensagem do Paulo Couto sobre as duas colunas acima citadas, nas quais abordo o tema da televisão inteligente. Mensagem que, de tão densa e completa, é quase uma nova coluna. E tão interessante que achei que meus preclaros leitores a apreciariam tanto quanto eu. Por isso, aqui vai ela, na íntegra (alterei apenas um ponto ou outro já que o texto original não tinha como objetivo a publicação e foi redigido usando a linguagem coloquial da troca de ideias entre amigos), seguida por alguns comentários deste vosso criado:

“Mestre, li suas colunas sobre Smart TV e, se me permite, gostaria de acrescentar algumas informações caso você um dia volte a falar sobre o assunto.

Primeiro, o hardware: corre um boato já há alguns anos que a Apple iria lançar a qualquer momento uma ‘smart TV’. Eu tive acesso a várias informações sobre isso e conclui que a razão principal dos sucessivos adiamentos é a obsolescência do hardware que ocorre de forma desigual: a TV ‘burra’ (a tela, a caixa de som, seu firmware, controle remoto, etc.) custam mais e têm uma vida útil muito mais longa do que os elementos que a tornam ‘smart’.

Por exemplo: o padrão WiFi muda a cada 3 anos e os requisitos de hardware (CPU, memória, decodificador, dispositivos ‘bluetooth’, etc.) para rodar o mini sistema operacional e aplicativos como o Netflix, Skype, etc. mudam, surpreendentemente, em intervalos ainda menores. Eu mesmo tenho um aparelho comprado há dois anos (não é uma TV) que não roda a última versão do Netflix por falta de memória.

E ainda não falamos das conexões HDMI, que mudam também em intervalos curtos. Meu ‘Home Theater’, por exemplo, não suporta ‘blu ray’ 3D nem 4K (duas especificações HDMI diferentes, uma mais avançada que a outra) e foi fabricado e comprado em 2010, portanto há apenas quatro anos. E já está atrasado em duas tecnologias HDMI.

Figura 1: WD TV Media
... Player (Foto: divulgação)

Por isso a Apple e demais fabricantes preferem oferecer uma caixinha que custa cerca de 80 dólares americanos e que transforma uma TV ‘burra’ em um conjunto muito inteligente.

Eu concordo que há vantagens em um sistema super integrado, com câmeras integradas ao aparelho de TV e sensores diversos a ele conectados, mas não ficaria satisfeito com minha teórica e caríssima nova TV de 60 polegadas de bioLED ultra moderna quando ela, infelizmente, se recusar a rodar a mais recente versão do sistema operacional ou refugar a conexão com os novos dispositivos domésticos que deverei adquirir ao longo da sua vida útil.

O ecossistema não fecha…

Em segundo lugar, há o modelo de negócio das assinaturas. 

Não sei se você acompanhou os acontecimentos dos últimos meses, mas a HBO por exemplo (além de outras) já oferece assinaturas desvinculadas de pacotes de TV, ou seja, qualquer um com um Apple TV, Amazon TV,  Chromecast, Roku ou outros dispositivos similares, pode acessar o HBO ao vivo, direto, tal como na TV ‘burra’, assinando o acesso apenas pelo aplicativo. A Bloomberg me parece que também faz isso. E há dezenas de outros canais de pequeno porte, além de alguns grandes, fazendo o mesmo. Especialmente os canais de esportes.

Isso traz duas consequências.

A primeira: muito em breve você não mais precisará assinar um pacote de TV a cabo, bastará assinar os canais online que você quiser. Supostamente isso seria mais barato e permitiria um nível de interatividade que a TV ainda não permite (aliás, se o cabo foi o fim da TV aberta em termos de importância relativa e tamanho do negócio, a TV pela Internet será o fim da TV a cabo). Não só a Netflix está lançando regularmente seriados e programas exclusivos para seus clientes como também a Amazon e HBO, entre outros.

A segunda: voltamos para o primeiro item, o hardware. Que provavelmente vai mudar mais rapidamente à medida que forem avançando os requisitos deste modelo de negócio. Por exemplo, caso você queira atender uma videochamada pela TV enquanto assiste o futebol ou um filme no HBO, o hardware terá que suportar esta funcionalidade (com a necessária alocação de memória, provisão de multitarefa, etc.). Também será necessário um novo hardware caso você queira assistir um jogo com um grupo amigos, todos em sua própria casa mas cada um aparecendo em uma janela PIP nas demais TVs, comentando, brigando, gritando, tudo isto em tempo real como se estivessem presentes. Ora, em vez de substituir a cada dois anos uma TV imensa de dois mil dólares americanos é melhor trocar uma caixinha de 80 dólares.

Por fim, há um fato novo. O filme ‘The Interview’, uma comedia que ridiculariza o líder supremo da Coreia do Norte, motivo de ameaças terroristas contra cinemas americanos e de um violento ataque hacker contra a Sony, foi lançado simultaneamente online (no YouTube, iTunes, etc.) e nas salas dos cinemas. É o primeiro caso no mundo e representa uma reviravolta na indústria. Foi quebrada a tradição de primeiro lançar nos cinemas seguindo uma distribuição geográfica que leva em conta os períodos de férias ou feriados de cada país, para depois estar disponível em ‘blu ray’ e DVD e somente então ser acessível nos sistemas ‘online’ de venda ou locação como o iTunes e, finalmente, transmitido pelos sítios tipo ‘streaming’ como o Netflix.

O efeito disto é que veremos cada vez mais lançamentos simultâneos mundiais pela Internet através das caixinhas inteligentes e uma brutal redução na pirataria. O filme ‘The Interview’, por exemplo, pode ser baixado online via ‘torrent’, mas as legendas ainda não estão 100% e dá algum trabalho deixá-lo pronto para ser assistido na TV ou no computador. Mas por menos de cinco dólares americanos eu posso assisti-lo online, legalmente, com legendas e som 5.1 pelo meu velho Home Theater com uma caixinha esperta a ele acoplada.

Abraços, Paulo”.

Abraços para você também, meu amigo. E obrigado por me dar uma coluna de presente de Natal. Pois pouco resta a ser comentado. Porém aqui vão alguns comentários que não contestam, apenas complementam suas considerações.

Primeiro, a questão do hardware, por detrás do qual acena o fantasma da padronização. O segundo relatório Gartner, mencionado lá no início da coluna, já aborda a questão. E, de acordo com ele, o problema será resolvido com a queda dos preços, que diminuem à medida que os produtos vão se disseminando. É claro que há que considerar a questão regional. Mesmo a custos mais baixos, trocar eletrônicos obsoletos é mais fácil e mais comum nos países ricos, onde se pode encontrá-los no lixo em perfeitas condições de funcionamento, postos fora porque ficaram ligeiramente desatualizados (hoje, depois de duas crises brabas, as coisas mudaram um bocado, mas nos anos noventa do século passado, convivi bastante com a comunidade brasileira de Nova Iorque composta principalmente por imigrantes ilegais e sei de pessoas que mobiliaram a casa inteira com móveis e eletrônicos recolhidos na calçada onde estavam à espera do lixeiro).

É verdade que as “caixinhas” ou dispositivos similares trazem as vantagens citadas. Também eu tenho uma (aquela da Figura 1, cuja foto foi obtida no material de divulgação da WD) que faz a alegria de minha neta quando vem me visitar e por ela assiste os desenhos animados transmitidos pelo Netflix, que adora. Mas perto das maravilhas que são ditas sobre os televisores inteligentes do futuro, ainda deixam a desejar.

Depois, o modelo de negócios. Quantos dos meu bem informados leitores sabem o que vem a ser o Chromecast? E o Roku? Não creio que a maioria os conheça. Mesmo porque eles exigem uma taxa de transmissão elevada (“banda larga”, mas larga mesmo) para que possam ser desfrutáveis, senão a transmissão em tempo real começa a travar e o que deveria ser um instrumento de entretenimento acaba virando uma aporrinhola. Quer dizer, a TV a cabo, por aqui, deverá ter vida mais longa que por lá.

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Por outro lado, com a disseminação das “casas conectadas” a tendência é que os dispositivos nelas usados sejam alvo de uma padronização específica que evolua mais lentamente e atrase a obsolescência. Mas cá pelo patropi a coisa muda e talvez o Gartner esteja sendo demasiadamente otimista em suas previsões (que são globais, não específicas para os EUA).

Finalmente o caso do filme “The Interview”. O modelo clássico de distribuição, que começa pelas salas de cinema e acaba nos sítios de transmissão em tempo real (“streaming”) obedece critérios essencialmente econômicos e, sinceramente, não creio que será afetado pelo episódio do “The Interview”. É até possível que venha a mudar, mas apenas quando esta mudança satisfizer os interesses econômicos da ávida e avara indústria do entretenimento.

No caso específico do episódio do “The Interview”, a mudança deve-se à interveniência do único fator que pode se sobrepor aos interesses econômicos: os interesses políticos. Do ponto de vista dos EUA, seria intolerável que um ataque de hackers pudesse interferir nos assuntos internos do país. Se a Sony se submetesse (como de fato se submeteu em um primeiro momento) à ameaça, mostraria que este tipo de ataque pode ser eficaz e certamente logo viriam outros. A única resposta aceitável por parte dos EUA é mostrar que não se curvam a este tipo de chantagem. E mostrou da forma mais ampla possível: difundindo o filme por todos os meios disponíveis, independentemente dos interesses econômicos e quebrando o modelo estabelecido.

O que eu não creio que volte a acontecer tão cedo.

No mais, ainda estamos no segundo dia do ano, portanto perdi somente um dia para desejar um 2015 prenhe de realizações e felicidades para todos vocês.

Que assim seja.

B. Piropo



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