Terca-Feira, 24 de Novembro de 2020

Com o atraso de duas décadas, Cuba finalmente chegou à era da Internet: em 2015 foram inauguradas dezenas de zonas de conexão WiFi nas principais cidades da ilha caribenha, permitindo à população acessar, pela primeira vez, a rede mundial a partir de seus próprios aparelhos (celulares, tablets e notebooks) – antes o acesso era feito somente em universidades e terminais públicos. A combinação dessa forma de acesso com uma queda no preço da conexão fizeram com que as zonas WiFi explodissem em popularidade e a Internet entrasse de vez no modo de vida do país.

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O TechTudo esteve na terra de Fidel, do mambo e do daiquiri para conferir o impacto dessa nova revolução na vida dos cubanos. Garantimos: daqui pra frente, nada será como antes.

Boulevard San Rafael, uma das zonas wifi de Havana (Foto: Giordano Tronco)

Praças da Revolução

O Boulevard San Rafael é uma pequena praça no centro de Havana. No amanhecer, é um lugar calmo e vazio, com pouco trânsito de pessoas, salvo uma ou outra mãe com seu filho à caminho da escola. À medida que a manhã avança, outras figuras chegam: pessoas com celulares e até mesmo notebooks passam a ocupar os bancos da praça. Não só jovens, mas também adultos. Por vezes, famílias inteiras: pais, filhos, avós, crianças pequenas.

Esse movimento se intensifica com o passar do dia. À noite, o Boulevard está tomado por havaneiros com celulares e computadores, acessando a Internet em grupo. Aqui e ali circulam jovens vendendo "tarjetas", cartões com códigos que dão acesso a 60 minutos de conexão. Para se conectar à rede WiFi da praça, os usuários precisam comprar um desses cartões e inserir o código nos celulares. Cada "tarjeta" custa US$ 2 nas lojas conveniadas, mas no mercado negro da rua, após o horário comercial, elas são vendidas por US$ 3,00.

Zona Wifi à noite (Foto: Cristina Tronco)

Três dólares é caro, para os padrões cubanos, mas já foi pior, bem pior. “(A conexão) começou com um preço extravagante, algo como US$ 8,50 a hora”, relata Victor Manuel Quintano, dono de uma oficina de smartphones em Vedado, Havana. “Depois baixaram para US$ 6, depois a US$ 4,50, e agora está a US$ 2,00″.

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O problema não era apenas o preço, mas também o próprio acesso à Internet, limitado a terminais públicos lotados e empresas estatais com conexão. Nos últimos anos, a conjunção de preços reduzidos, popularização dos smartphones e inauguração de zonas WiFi permitiu que 2015 fosse o ano da Internet em Cuba. Com a descentralização do acesso, muitos cubanos acessaram a rede mundial pela primeira vez. Por outro lado, ainda não dá para se conectar de casa.

Casal acessa a Internet (Foto: Giordano Tronco)

Ao contrário de países como China, Turquia e Irã, não há censura governamental a redes sociais em Cuba, mas o acesso é dificultado pela lentidão da conexão. Por conta do bloqueio econômico imposto pelos EUA, há apenas um cabo de fibra ótica que leva Internet à ilha. O resultado é uma velocidade de conexão de Internet discada. YouTube, nem pensar.

Sentado na calçada da rua em frente ao Boulevard San Rafael, um cubano reclama da velocidade: “O preço baixou bastante, mas as conexões ainda são lentas. Estamos dez anos at

... rasados no desenvolvimento da Internet", reclama.
Cubana utiliza o wifi da praça (Foto: Cristina Tronco)

Ponto de fuga

A lentidão da conexão não é fator suficiente para frear a popularização da Internet em Cuba. Entre o início de 2015 e fevereiro de 2016 foram inauguradas 65 zonas WiFi em todo o país, sendo 18 delas na capital, Havana. Mais pontos serão instalados em 2016. E a população de usuários só cresce, especialmente entre os jovens.

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Na noite do Boulevard San Rafael, um grupo chama atenção: são mais de vinte pessoas com seus celulares, todas em volta de uma mesinha com um notebook. Mateo, o dono do computador, descobriu uma forma de distribuir o acesso de WiFi de uma única tarjeta para vários dispositivos ao mesmo tempo. Assim, ele compra um só cartão e revende a conexão para várias pessoas a um preço menor do que US$ 2,00. É algo totalmente ilegal, mas Mateo não se importa. “O governo não ia gostar nada disso aqui”, diz, com prazer.

Cartum sobre o wifi em Cuba (Foto: Giordano Tronco)

Os clientes de Mateo são, na sua maioria, adolescentes que querem aproveitar o máximo da recém-descoberta Internet. Usam tênis Adidas e roupas de marcas americanas. E não desgrudam os olhos de seus smartphones. Não muito diferentes dos jovens que moram na Flórida, tão próxima dali. “Esses aqui chegam na praça junto comigo e só saem quando eu vou embora”, conta Mateo. “Vêm todos os dias. É um vício.”

Quando perguntado sobre o que esses jovens acessam nos seus smartphones, Mateo responde como se fosse óbvio: “Estão falando com parentes que saíram de Cuba. Combinando um jeito de dar o fora.”

Não importa o lugar do mundo: por onde a Internet passa, nada se mantém como antes.



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